Sensibilidade a sons comuns: pode ser hiperacusia?

Talheres batendo, secador de cabelo, aspirador, buzina ou até uma conversa em volume mais alto fazem parte da rotina. Para algumas pessoas, porém, esses estímulos passam a provocar uma sensibilidade a sons muito maior do que a percebida por quem está ao redor.

O desconforto pode fazer com que a pessoa tampe os ouvidos, saia de determinados ambientes ou comece a evitar lugares onde imagina que haverá barulho.

Quando sons considerados toleráveis para a maioria das pessoas passam a provocar desconforto físico ou emocional intenso, uma das possibilidades é a hiperacusia. Essa condição está relacionada à redução da tolerância sonora e pode ocorrer mesmo quando a capacidade de perceber sons baixos está preservada.

Por isso, sentir que “tudo ficou alto demais” não significa necessariamente que a pessoa esteja ouvindo melhor. O que pode ter mudado é a maneira como determinados níveis de som são tolerados.

Sensibilidade a sons é sempre hiperacusia?

Não.

Existem pessoas que simplesmente preferem lugares silenciosos ou se incomodam mais com determinados tipos de barulho. Isso, isoladamente, não caracteriza hiperacusia.

O que chama atenção é quando sons cotidianos provocam uma reação desproporcional à intensidade real do estímulo.

A pessoa pode começar a sentir desconforto com:

  • louças e talheres;

  • secadores e aspiradores;

  • buzinas;

  • trânsito;

  • música em volume moderado;

  • vozes mais altas;

  • sons de crianças;

  • eletrodomésticos;

  • ambientes movimentados.

Em algumas pessoas, o som parece apenas excessivamente alto. Em outras, pode provocar dor, medo, irritação ou forte necessidade de se afastar.

A frequência e o impacto desse incômodo na rotina são informações importantes durante a avaliação.

Hiperacusia não significa ter uma audição melhor

É possível apresentar hiperacusia e ainda assim ter limiares auditivos dentro do esperado.

Isso acontece porque detectar um som e tolerar sua intensidade são aspectos diferentes da audição.

Uma pessoa pode conseguir ouvir sons baixos normalmente, mas apresentar desconforto muito antes de atingir intensidades que seriam toleradas por outras pessoas.

Por isso, a investigação costuma avaliar não apenas quanto a pessoa consegue ouvir, mas também como ela reage à intensidade sonora.

Na CLIAOD, a audiometria permite avaliar os menores níveis sonoros percebidos pelo paciente e identificar possíveis alterações auditivas.

Esse resultado ajuda a entender se existe perda auditiva associada, mas não encerra sozinho a investigação da sensibilidade aos sons.

O problema pode começar depois de uma exposição intensa a ruído

Algumas pessoas conseguem relacionar o início da sensibilidade sonora a um acontecimento específico.

Pode ser depois de:

  • um show;

  • uma explosão;

  • uso de equipamentos muito barulhentos;

  • exposição profissional intensa;

  • trauma acústico.

Exposição a ruído e trauma acústico estão entre os fatores que podem estar associados à hiperacusia. Também existem outras condições relacionadas, como enxaqueca, traumatismos na cabeça ou pescoço e algumas alterações do ouvido e do sistema nervoso.

Em outros pacientes, porém, não existe um acontecimento claro que explique quando a sensibilidade começou.

É justamente por isso que o histórico precisa ser analisado individualmente.

Zumbido e sensibilidade aos sons podem aparecer juntos

Hiperacusia e zumbido não são a mesma coisa, mas podem coexistir.

Enquanto o zumbido envolve a percepção de um som sem uma fonte externa correspondente, a hiperacusia está relacionada à tolerância reduzida aos sons que realmente estão presentes no ambiente.

Uma pessoa pode apresentar apenas uma dessas alterações ou perceber as duas ao mesmo tempo.

Quando isso acontece, é importante informar:

  • se o zumbido começou antes ou depois da sensibilidade;

  • se acontece em um ou nos dois ouvidos;

  • quais sons causam maior incômodo;

  • se existe alguma mudança na audição;

  • se houve exposição recente a ruído.

Essas informações ajudam a direcionar a avaliação e a identificar outras condições que possam estar associadas.

Quando sons comuns começam a provocar dor

A hiperacusia não é percebida da mesma maneira por todas as pessoas.

Para algumas, o problema é principalmente a sensação de volume excessivo. Para outras, determinados sons podem provocar dor ou desconforto físico importante.

Essa reação pode fazer com que a pessoa comece a organizar toda a rotina para evitar barulho.

Restaurantes deixam de ser frequentados, encontros sociais passam a ser evitados e ambientes profissionais se tornam difíceis de suportar.

Quando isso acontece, o impacto da alteração deixa de estar restrito à audição.

Avaliar quanto o problema interfere no trabalho, lazer, sono e convivência também é importante para definir a abordagem.

Usar protetor de ouvido o tempo todo pode não ser uma boa estratégia

Diante do desconforto, é compreensível querer bloquear os sons.

Protetores auriculares são importantes quando existe exposição a níveis sonoros realmente elevados. O problema é utilizá-los durante grande parte do dia mesmo em ambientes com intensidade segura.

A ASHA alerta que evitar continuamente sons cotidianos pode aumentar ainda mais a sensibilidade em algumas pessoas com hiperacusia. A proteção deve continuar sendo utilizada quando há risco real de exposição excessiva, mas não como forma de eliminar todos os estímulos sonoros da rotina.

Por isso, o objetivo não é escolher entre “aguentar o barulho” e “tampar os ouvidos o tempo inteiro”.

A orientação depende do grau de sensibilidade e das características de cada paciente.

Como é feita a avaliação da sensibilidade aos sons?

A investigação começa entendendo exatamente o que a pessoa sente.

O profissional pode perguntar:

  • quando a sensibilidade começou;

  • quais sons provocam desconforto;

  • se acontece nos dois ouvidos;

  • se existe dor;

  • se há zumbido;

  • se houve exposição a som intenso;

  • se a audição mudou;

  • se também existem tontura ou desequilíbrio;

  • quanto o problema interfere na rotina.

A avaliação audiológica pode ajudar a verificar a audição e identificar alterações associadas.

Em alguns casos, também é importante saber em qual intensidade o som começa a se tornar desconfortável.

É possível avaliar o nível em que o som começa a incomodar?

Sim.

Uma das avaliações utilizadas é a pesquisa do limiar de desconforto auditivo.

Na CLIAOD, o limiar de desconforto auditivo identifica a intensidade em que o som passa a causar incômodo ao paciente, ajudando a observar a distância entre o menor nível que ele consegue ouvir e aquele que já se torna desconfortável.

Essa informação pode contribuir para a investigação de pessoas com baixa tolerância aos sons.

O resultado, entretanto, não deve ser interpretado isoladamente. A tolerância sonora pode variar e precisa ser analisada junto com os sintomas, o histórico e os demais resultados da avaliação.

E se o barulho também provocar tontura?

Essa é uma informação particularmente importante.

Hiperacusia está relacionada principalmente à tolerância ao som. Quando um estímulo sonoro também provoca tontura, desequilíbrio ou sensação de movimento, outras alterações podem precisar ser consideradas.

Existem condições específicas nas quais sons intensos ou mudanças de pressão desencadeiam sintomas vestibulares.

Quando sons fortes provocam tontura ou movimentos involuntários dos olhos, a pesquisa do Fenômeno de Túlio pode fazer parte da investigação, conforme a avaliação profissional.

Isso representa uma situação diferente de simplesmente achar um som alto ou desagradável.

Por isso, descrever exatamente o que acontece durante a exposição sonora é fundamental.

A hiperacusia tem tratamento?

A abordagem depende das características do paciente e das condições que possam estar associadas.

Orientação, acompanhamento audiológico e estratégias de exposição sonora controlada podem fazer parte do manejo em alguns casos. Também podem ser considerados outros profissionais quando o impacto emocional, ansiedade ou outras condições associadas estão presentes.

O objetivo não é simplesmente obrigar a pessoa a suportar sons que causam desconforto.

Da mesma forma, eliminar progressivamente todos os estímulos sonoros da rotina pode não ser adequado.

A estratégia precisa ser individualizada e considerar tanto a tolerância auditiva quanto o impacto do problema no cotidiano.

Quando procurar avaliação?

Vale investigar quando a sensibilidade:

  • aparece de forma recente e persiste;

  • está ficando progressivamente maior;

  • provoca dor;

  • interfere no trabalho ou nas atividades sociais;

  • surgiu depois de uma exposição intensa a ruído;

  • acontece junto com zumbido;

  • veio acompanhada de mudança na audição;

  • leva ao uso constante de protetores;

  • também provoca tontura ou desequilíbrio.

Quanto mais claramente a pessoa conseguir explicar quais sons provocam o problema e qual reação eles causam, mais direcionada pode ser a investigação.

Perguntas frequentes sobre sensibilidade a sons

1. Quem se incomoda com barulho tem hiperacusia?

Não necessariamente. A hiperacusia envolve uma redução importante da tolerância a sons que seriam considerados aceitáveis para a maioria das pessoas.

2. É possível ter hiperacusia sem perda auditiva?

Sim. A capacidade de perceber sons e a tolerância à intensidade não são a mesma coisa. Uma pessoa pode apresentar sensibilidade sonora mesmo sem uma perda auditiva evidente.

3. Hiperacusia pode causar dor?

Algumas pessoas descrevem desconforto físico ou dor diante de determinados sons, enquanto outras percebem principalmente volume excessivo ou uma reação emocional intensa.

4. Devo usar protetor auricular quando os sons incomodam?

A proteção é indicada diante de ruídos potencialmente prejudiciais. O uso constante em ambientes seguros, porém, pode aumentar a sensibilidade sonora em alguns pacientes.

5. Existe exame para avaliar a tolerância ao som?

Sim. O limiar de desconforto auditivo pode ajudar a identificar a intensidade em que determinados estímulos passam a causar incômodo.

Conclusão

Uma sensibilidade aumentada aos sons não significa simplesmente “não gostar de barulho”.

Quando atividades comuns começam a provocar desconforto importante, dor ou necessidade constante de evitar determinados ambientes, a tolerância auditiva merece ser avaliada.

Hiperacusia, alterações auditivas e outras condições podem apresentar manifestações semelhantes, e informações como exposição prévia a ruído, presença de zumbido e tontura ajudam a direcionar a investigação.

Se sons que antes eram comuns passaram a parecer intensos ou desconfortáveis demais, converse pelo WhatsApp com a equipe da CLIAOD para avaliar sua tolerância sonora e sua audição.

* Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual realizada por um profissional de saúde.

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