Criança distraída ou dificuldade auditiva? Sinais para observar

Quando uma criança não responde ao ser chamada, perde partes das explicações ou precisa receber a mesma orientação várias vezes, é comum surgir a impressão de que ela está distraída. Em alguns casos, isso pode realmente estar relacionado à atenção. Em outros, porém, uma dificuldade auditiva pode produzir comportamentos muito parecidos.

A criança não precisa deixar de ouvir completamente para apresentar sinais. Algumas perdas auditivas são leves, acontecem em determinadas frequências ou afetam apenas um dos ouvidos. Nesses casos, ela pode perceber vários sons normalmente e ainda encontrar dificuldade para compreender a fala em algumas situações.

Por isso, observar quando o comportamento acontece pode ser tão importante quanto perceber que ele existe. Dificuldade maior em locais barulhentos, pedidos frequentes de repetição, aumento do volume dos aparelhos e problemas para seguir instruções são algumas pistas que justificam atenção à audição.

Criança distraída ou dificuldade auditiva: por que pode ser difícil perceber?

Quando pensamos em perda auditiva, é comum imaginar uma criança que não reage aos sons.

Nem sempre é assim.

Uma criança pode escutar a campainha, ouvir um desenho na televisão ou perceber quando alguma coisa cai no chão e, ainda assim, ter dificuldade para compreender determinadas palavras.

Isso pode acontecer porque as alterações auditivas variam em intensidade e características.

A própria criança também pode desenvolver maneiras de compensar a dificuldade, como observar mais o rosto de quem está falando, aproximar-se da televisão ou acompanhar o comportamento dos colegas antes de iniciar uma atividade.

Por isso, não responder quando chamada, pedir repetição, aumentar o volume e apresentar dificuldade para entender conversas em ambientes barulhentos podem ser sinais de perda auditiva na infância, embora nenhum deles isoladamente confirme o problema.

O comportamento pode mudar dependendo do ambiente

Uma informação particularmente útil é observar onde a dificuldade aparece.

Dentro de casa, a criança pode conversar com os pais em um ambiente relativamente silencioso e a pouca distância.

Na escola, a situação é completamente diferente.

Ela precisa ouvir o professor enquanto existem:

  • outras crianças conversando;

  • cadeiras sendo movimentadas;

  • sons do corredor;

  • ventiladores ou ar-condicionado;

  • diferentes atividades acontecendo ao mesmo tempo.

Além disso, o professor muitas vezes está a vários metros de distância.

Uma dificuldade auditiva discreta pode, portanto, ficar muito mais evidente na sala de aula do que dentro de casa.

A ASHA destaca que crianças com perda auditiva podem apresentar dificuldade para seguir e compreender instruções, pedir repetição com frequência, sentir maior cansaço ao final do dia escolar e apresentar dificuldades acadêmicas, comportamentais ou sociais.

Alguns sinais aparecem principalmente na escola

Nem sempre o primeiro alerta vem dos pais.

O professor pode perceber que a criança:

  • demora para começar uma atividade depois da explicação;

  • observa o que os colegas fazem antes de começar;

  • pergunta repetidamente o que deve fazer;

  • responde algo diferente do que foi perguntado;

  • perde partes de instruções mais longas;

  • parece desligar-se durante explicações;

  • apresenta maior dificuldade quando a sala está barulhenta;

  • precisa ficar mais próxima do professor para acompanhar melhor.

Esses comportamentos não significam automaticamente que exista perda auditiva.

Atenção, linguagem, aprendizagem e outros fatores também podem produzir manifestações semelhantes.

Por isso, o objetivo não é substituir a hipótese de “distração” pela hipótese de “problema auditivo”. É verificar se a audição está contribuindo para aquilo que pais e professores estão observando.

Pedir para repetir frequentemente é uma pista importante

Toda criança eventualmente pergunta “o quê?” ou não escuta uma orientação porque estava envolvida em outra atividade.

A frequência é que chama atenção.

Quando pedidos de repetição acontecem diversas vezes ao dia, principalmente mesmo quando a criança parece estar prestando atenção, vale observar outras situações.

Por exemplo:

A criança entende melhor quando consegue ver o rosto de quem está falando?

Tem mais dificuldade quando alguém chama de outro cômodo?

Precisa aumentar o volume da televisão?

Responde melhor quando a pessoa está próxima?

Esses padrões fornecem informações mais úteis do que um episódio isolado.

Otites podem causar alterações temporárias na audição

Outro ponto importante é o histórico de ouvido da criança.

Otites e presença de líquido no ouvido médio podem provocar redução temporária da audição. Mesmo quando a criança continua ouvindo, alguns sons podem chegar de forma mais abafada.

Em fases de desenvolvimento da linguagem e alfabetização, episódios repetidos merecem acompanhamento.

Quando a otite média provoca inflamação ou acúmulo de líquido atrás do tímpano, a audição pode ficar temporariamente prejudicada.

Por isso, uma criança que teve várias otites e começa a apresentar pedidos frequentes de repetição, dificuldade na escola ou sensação de ouvido tampado deve ter esse histórico considerado durante a avaliação.

Nariz e ouvido também podem estar relacionados

Na infância, condições respiratórias persistentes também podem repercutir no ouvido médio.

A tuba auditiva conecta essa região à parte posterior do nariz e participa da ventilação e do equilíbrio da pressão.

Crianças com obstrução nasal importante, respiração pela boca e aumento da adenoide podem apresentar alterações relacionadas ao ouvido médio em determinados casos.

Quando a adenoide aumentada provoca obstrução nasal e outros sintomas persistentes, a avaliação otorrinolaringológica ajuda a analisar o quadro como um todo, inclusive quando existem queixas auditivas associadas.

Isso mostra por que ouvido, nariz e desenvolvimento da comunicação nem sempre devem ser avaliados de maneira completamente separada.

A fala também pode oferecer pistas sobre a audição

A criança aprende muitos aspectos da linguagem ouvindo as pessoas ao redor.

Ela precisa perceber diferenças entre os sons, reconhecer palavras e relacionar aquilo que escuta aos significados.

Por isso, alterações auditivas não identificadas podem interferir no acesso à linguagem e, consequentemente, na comunicação e na aprendizagem. A ASHA destaca que o acesso adequado à linguagem é importante para desenvolvimento da fala, comunicação, alfabetização e aprendizagem.

Algumas situações que merecem atenção são:

  • atraso na evolução da fala;

  • dificuldade para pronunciar determinados sons;

  • vocabulário menor do que o esperado;

  • dificuldade para compreender orientações;

  • necessidade frequente de repetição.

Nem toda alteração de fala significa problema auditivo.

Mas quando surgem dúvidas sobre o desenvolvimento da comunicação, verificar a audição ajuda a excluir ou identificar um fator que pode estar contribuindo para o quadro.

Passar no teste da orelhinha não elimina alterações futuras

O teste realizado no período neonatal é fundamental para identificar precocemente determinadas alterações auditivas.

Entretanto, uma criança que apresentou resultado adequado ao nascer ainda pode desenvolver perda auditiva posteriormente.

Algumas alterações são adquiridas ao longo da infância, podem progredir com o tempo ou ser discretas demais para serem identificadas na triagem neonatal. Por isso, a ASHA recomenda monitorar a audição ao longo do desenvolvimento, principalmente quando aparecem fatores de risco ou novas preocupações.

Assim, diante de novos sinais, um teste realizado anos antes não deve ser usado como motivo para descartar uma avaliação atual.

Como é feita a avaliação auditiva da criança?

A forma de avaliar depende principalmente da idade e da capacidade da criança de participar dos testes.

Primeiro, são consideradas informações sobre:

  • desenvolvimento;

  • fala e linguagem;

  • histórico de otites;

  • gestação e nascimento;

  • comportamento em casa;

  • desempenho escolar;

  • histórico familiar de perda auditiva.

Depois, podem ser utilizados diferentes exames.

A avaliação audiológica infantil pode incluir testes comportamentais, medidas do funcionamento do ouvido médio, otoemissões acústicas e potenciais evocados auditivos, de acordo com a idade e a necessidade clínica.

Não existe, portanto, um único exame adequado para todas as crianças.

Quando a criança ainda não consegue responder aos testes

Crianças pequenas ou que não conseguem fornecer respostas consistentes podem precisar de avaliações que não dependem diretamente de indicar se ouviram ou não um som.

Um exemplo é o PEATE, também conhecido como BERA.

Na CLIAOD, o PEATE-BERA registra respostas elétricas das vias auditivas diante de estímulos sonoros e pode ser utilizado na investigação da audição infantil. O exame é objetivo e pode ser empregado quando não é possível obter uma resposta subjetiva confiável da criança.

As otoemissões acústicas também podem participar da avaliação da audição em crianças, inclusive em situações nas quais testes subjetivos são difíceis de realizar.

A escolha depende do que precisa ser esclarecido, e os resultados devem ser analisados em conjunto.

Atenção e audição podem precisar ser avaliadas separadamente

Uma criança pode apresentar uma dificuldade auditiva. Outra pode apresentar uma questão relacionada à atenção. E também é possível que diferentes condições coexistam.

Por isso, não é adequado concluir que existe um transtorno de atenção apenas porque a criança parece distraída, assim como não é correto atribuir todo comportamento desse tipo à audição.

A avaliação auditiva tem uma função importante nesse processo: verificar se a criança está recebendo adequadamente as informações sonoras.

Se a audição estiver adequada e as dificuldades permanecerem, outros aspectos do desenvolvimento podem precisar ser avaliados pelos profissionais correspondentes.

Esse caminho evita que comportamentos semelhantes sejam tratados como se tivessem necessariamente a mesma origem.

O que pais e professores podem observar antes da consulta?

Não é necessário realizar testes improvisados em casa.

Observar a rotina costuma fornecer informações melhores.

Durante alguns dias, vale perceber:

  • se a criança responde quando chamada sem ver quem está falando;

  • se o comportamento muda em lugares barulhentos;

  • quantas vezes pede repetição;

  • se aumenta o volume dos aparelhos;

  • se aproxima um ouvido de quem está falando;

  • se houve otites recentemente;

  • se existe diferença entre o comportamento em casa e na escola;

  • se a dificuldade parece estar aumentando.

Também pode ser útil conversar com o professor antes da consulta.

Saber em quais situações a criança apresenta mais dificuldade ajuda a direcionar a avaliação.

Quando vale avaliar a audição?

A avaliação deve ser considerada quando os sinais são persistentes ou começam a interferir na comunicação e na aprendizagem.

Merecem atenção especialmente:

  • pedidos frequentes de repetição;

  • dificuldade para seguir instruções;

  • volume muito alto na televisão ou em outros aparelhos;

  • histórico de otites recorrentes;

  • atraso ou mudança na fala;

  • maior dificuldade em ambientes barulhentos;

  • queda no desempenho escolar;

  • preocupação relatada por pais ou professores.

A ASHA recomenda que preocupações expressas por familiares ou professores sejam consideradas motivo para realizar triagem ou avaliação auditiva conforme o caso.

Não é necessário esperar que a criança deixe de responder aos sons para investigar.

Perguntas frequentes sobre criança distraída e audição

1. Toda criança que não responde quando chamada está com perda auditiva?

Não. A criança pode estar distraída ou concentrada em outra atividade. Quando isso acontece frequentemente e existem outros sinais, porém, a audição merece ser avaliada.

2. A perda auditiva pode fazer a criança parecer desatenta?

Pode. Dificuldade para seguir instruções, pedidos frequentes de repetição e problemas escolares estão entre os sinais que podem aparecer em crianças com perda auditiva.

3. Uma criança pode ouvir televisão e ainda ter perda auditiva?

Sim. A perda pode afetar apenas determinadas frequências, ser leve ou ocorrer em apenas um ouvido. Perceber alguns sons não garante que toda a audição esteja dentro do esperado.

4. Otite pode fazer a criança ouvir menos?

Pode. Alterações do ouvido médio podem provocar redução temporária da audição, especialmente quando existe líquido atrás do tímpano.

5. Qual exame é indicado para avaliar a audição infantil?

Depende da idade, do desenvolvimento e da queixa. Audiometria, medidas do ouvido médio, otoemissões acústicas e potenciais evocados como o BERA podem fazer parte da avaliação.

Conclusão

Uma criança que parece distraída nem sempre está simplesmente deixando de prestar atenção.

Quando existem pedidos frequentes de repetição, dificuldade maior em ambientes barulhentos, histórico de otites, alterações na fala ou problemas para acompanhar instruções, a audição também precisa entrar entre as possibilidades consideradas.

O objetivo não é interpretar cada comportamento como sinal de perda auditiva. É observar o padrão e verificar se a criança está recebendo as informações sonoras com clareza suficiente para acompanhar conversas, orientações e atividades escolares.

Se você ou a escola começaram a perceber mudanças na forma como a criança responde às conversas e instruções, fale com a CLIAOD pelo WhatsApp para verificar a necessidade de uma avaliação auditiva.

* Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual realizada por um profissional de saúde.

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